20 agosto 2012

Conversão





A que momentos devemo-nos à vida?
seria agressivo abdicar dos trilhos
e alimentar as esquinas?
porque não entendo tão claramente as
                       cidades como
entendo as chamas, as chagas e o óbvio.
Cada um confirma a si mesmo
quando executa algum de seus vícios!
É a auto imunidade das mudanças,
veja bem o quanto amo o enigma
dos primeiros encontros,
enquanto os espanto em desequilíbrio
contra a iminência do acaso.
É caso para psicólogo, bem entendo
a independência das minhas exigências.
Sempre se unindo esses paradoxos
vigentes!
São outros mundos em transformação.




Shauara David Acari/RN









Hipóteses


Quando escrevo as minhas coisas é tudo no passado.
Parece até que já tenha morrido...
E daí?
Ou talvez seja a poesia, onde tudo não morre...



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]
  


Núcleo





Primeiro surgiu o deslumbre
depois o espontâneo
descobriu-se a necessidade de regras
alimentada pela ordem do bem geral
afinal, casa só se constrói com disciplina
Então, nos foi dada uma pauta,
logo ao nascer para evitar rupturas
enganar aos poucos a essência
o amor se cabe devagarzinho, passivamente
e depois pede o troco
toda essa gente ai, não me justifica
é incômodo manter certas delicadezas
rudimentar os sentimentos
para enfim despejar os dejetos
no lugar mais frequentado.
Retiro-me da guerra envergonhada
porque somos nós que construímos o inferno.

 

08 agosto 2012

DejaVu II





A angústia não me pressiona mais,
aprendemos uma convivência norteadora
seguimos calmos, sorrindo manhosamente
em função das luas
a solidão nos uniu, nos tornou inquietante
parceria. A destreza dos brindes combinados
cantam. Estou feliz por estar feliz
quanta ingenuidade!
(meio falsa ela engana, a pureza está na angústia!)
toda pureza desperta angústia:
O bocejo do recém-nascido
A assiduidade do velho na praça
Aquela desabituada esquina.
Será inveja que a felicidade se aproxima?
Tantos rituais e eu repetindo ideias,
hoje lembrei de atravessar teu beijo
assaltar teu momento, onde quer que estejas,
nem me instiga saber
relativamente vou recuperando o sentido
de frieza.
Nós na mesa, sem precisar falar para
pedir a manteiga
nós, muito mais velhos que ontem
saboreando a malícia inculta dos meninos
isso insulta e alimenta o que sentimos.





19 julho 2012

Do que fui serei







Minha velhice tem mania de juventude
e como todas as manias tem efeito inútil
Fui me olvidando de memórias:
Segredos que as pedras da rua contavam
(as pedras tinham pensamentos)
bem me importava com o que sentiam
porque tudo tinha vida,
e fazia todo o sentido;

Mal sabia que a sabedoria estava no passado
falta do que fazer ou vontade de fugir de mim
raspei as sobrancelhas. Foi quando
soube a importância delas.
Outras vezes quis partir,
fiz uma parceria silenciosa
com Deus para concretizar a sublime
sensação de estar em seu colo,
bem como havia sonhado;

Mas Ele nunca me levou ainda...
Então desafiava o mal, com a faca na barriga
uma dramaticidade enraizada na inocência!
Minha idade nunca foi de fato, a mesma
a juventude tem cadência de velhice
catedráticos vinte e cinco anos em
busca de aventura e sossego
ainda me desassossego por paixões,
só me sinto presa quando a loucura
esquece de me permitir sua presença
me escondo em livros para embalsamar
a nostalgia do que fui (é saber como serei)

A solidão é uma escolha de mil companhias.



Pedra do infinito





Caminhava pela praia sozinha
ao encontro do mar
pra desmedir segredos.
Se a busca racionaliza, e a racionalização
afasta
como podia conter minha sanidade?
não fiquei sem respostas
uma pequena e branca pedra me encontrou
tão logo a sentia em meus dedos
seu infinito.

Percebi que era você, macio
(como as nuvens dispersas)
os cabelos desgrenhados
barba mais cumprida
e um gênio sagaz
compatível com o meu;
Irônicos.
Me perguntaste o que era “o nada”
O nada é aquela palavra
que não pede questionamentos
mas como você inverte os interesses
completo: nada se faz tudo quando somos sós
nesses momentos raros,
infinitos.

03 julho 2012

O diluir dos anos







É sono ou o quarto tornou-se bolas azuis
frenéticas , espelhadas

dançando farpas e beijos?


Pensei que era festa

quando tive meu primeiro cartão de crédito

mas as luzes apagam antes do amanhecer


Ainda me chamam moça

invertebralmente aqui dentro

fios e cacos cortantes

Inútil enganar meus companheiros invisíveis;

Somos sós.

Quando custo a crer nos mil

anos em que nasci.


Só peço quando estiver deitada na cama de madeira

por favor, não me cubram os pés

formalizar despedidas é agonizante


Ri em mim lembranças da infância irretocável

torno-me como elas, as crianças

atemporais, inteiras, entregues

doídas.


Com os pés desnudos, imundos de brancura.