16 abril 2012

Café com poesia




Dois casais na minha frente.
Cada par numa mesa paralela, apenas dois,
ou seriam quatro?
Individualmente fazem os pedidos
Ele vai de espumone, ela milk shake
Do outro lado, cerveja para ele,
chocolate quente ela.
sussurram tão baixo que revelam seus segredos,
bem os conheço,não me cabe surtos;
um casal foi embora.
O outro me observa.
Finjo não perceber que os criei,
Porque os observo?
Enquanto espero ninguém em silêncio,
o teu olhar dual me fita,
(noutro lado da cidade)
em vultos.

05 abril 2012

Acaso o piano




Ele dançava mãos suaves
pelo piano
empurrava crédulo e inteiro os dedos
como se não houvesse plateia.
Era vazio de pensamento, experimentava a si.
Atingiu em cheio
meus sentidos destoados,
Perdi o chão;
de tão leve passei a sobrevoar feito pássaro proibido
pessoas jantando em companhia
pareciam imóveis, feitos de cera.
Mas eles moviam-se sincronicamente com a melodia.
Comungávamos da mesma sagacidade
Eu, minhas asas e a música.
apenas ele dançava, nem alegre nem triste
indecifravelmente conformado.
Logo pensei atravessar a nado os ritmos
da música.
O músico me embevecia
enquanto contemplava o acaso.

29 março 2012

A cada encontro far-te-ei poesia




Não vou sobrecarregá-lo meu bem, com
abordagens vãs, já conhecemos o desejo
atraído pelo outro, o estranho nos espreita
para dizer que o ideal não existe, então aceita
o acaso que torna sincero o imperfeito e
passa a ser infinito o momento.

A cada encontro dar-te-ei poesia,
sente a magia plantar também a arte?
Não te precipites, me é dispensável respostas;
tua boca pequena já sussurra silêncios
conversas ao mar os pensamentos infindos
e isso satisfaz perguntas e não promessas
desconhecemos o futuro, mas o seguimos
fielmente. Pisando coisas;
arrastando o chão,
tropeçando sentimentos.

Não quero sobrecarregá-lo, amor,
com minhas desventuras, é suave tua cor
e se tua lombar reclama onde minha
mão não alcança, que águas desnudas
hão de aliviar tuas súplicas?
Levita que a grama nos acomoda essas noites
A lua testemunha o esmorecer do encanto
mas teu semblante, a cada encontro
bem servirá por tu a alimentar a poesia.

21 março 2012

Sálvia Divinorum




O mundo feito em dois minutos.
O mundo em mim, fractal e movido de pintura.
Tudo é borracha densa derretendo balbucios;
Cadê ele? A língua enrola enquanto a boca baba
(vi o duende na floresta) mas cadê ele?
Não era floresta, a casa testemunhava a agonia
Não eram visíveis, os olhos incrédulos creem!
Foi puxada abruptamente a alma, não havia corpo
além do nada, a realidade se desintegra e
transforma-se em nós, agora somos quadros,
uma surrealidade sem importância, pouco importa.
Ninguém nos pintou, é apenas mentira;

O amigo invisível acha engraçada minha cara, minha
calça verde. Todos riem, são desconexas as sensações
num segundo foram esfumaçados o todo individualizado
para comungar ainda mais irreal o que chamamos
morte; ou será nascimento?(se) tanto faz
o corpo desmembra
em ondas de borracha, quadro.
Porque tudo é mentira;
Apenas não a ideia xamânica turva e breve.

Tive medo. Fiquei curiosa:
O duende pegou em minha mão, e a mão não era minha
não havia dedos, porque não havia duende;
eram múltiplas as realidades
o entendimento foi desorientado em túneis
Minha calça não tem cura, é engraçada;
Somos hilários enquadrados de Dali!
Não é liquido nem concreto esse chão colorido,
esses móveis, tudo feito de mentira.
O tempo inexiste, a arte inexiste, a casa inexiste
Só existe o mundo emborrachado,
feito de loucura.

13 março 2012

O amadurecimento do tédio



No passado se quebraram taças matrimoniais
em desesperos dos arrependidos
geravam novos perdidos
desde então, sucessivamente.

Mas isso era no passado. Panelas voavam
de agressões descontroladas, fazendo o medo
(palavra por si só pronunciada
produz o aumento da sensação)
substituir as juras destroçadas, tal qual os cacos.

Porém já foi. O infantil cresceu envergonhado
procurando ao máximo, não incomodar.
O adulto se consolidou firme e
no entanto, fraquejava pelas paralelas
para manter o caminho do meio
sem más precedentes emocionais.

Desde então tudo estagnou de repente
trabalho, saídas forçadas, conversas
ligeiramente cansadas. Tédio absoluto.
O medo do passado, apenas mais amadurecido,
claro, com o mesmo cheiro frio de vento
(mais amargo mais gélido)
Uma tristeza infinita mergulhada no
trago de uísque
aquela brandura inerte no tempo
Ingênua, nem imaginava;
tudo cabia no futuro.

02 março 2012

Música silenciosa



Lembro-me quando as palavras eram
jogadas na mesa, espalhavam-se como um incêndio
pelos ares das praias vizinhas, barulhos
de confusões soavam tiros às renúncias
da prisão. Todos estávamos aprisionados em
tempo, não escaparíamos do futuro ,
hoje o instante cavalga cegamente em círculos
de forma que o passado, mastigado entre vidros
do piso da casa de nossa avó,
desse sinal de partida mais uma vez
quando menos se esperava a poeira esquivava
tão logo transformasse em tornado
quem por perto passasse, mesmo que em miúdos
não escapariam da sutil e singeleza culpa.
tais tormentos bons o foram em amadurecer
frutos, leitos e gentes.

Tanto que amor tornou-me necessário o silêncio,
desde então expulso máscaras para desvestir
ilusões.
Concluo árvores genealógicas enquanto
a música torna líquida a energia emanada.
Sou feita de música silenciosa, respeitosa de noite
além de fantasias. São verdadeiras paixões,
as palavras sobre a mesa.
E pensar como é boba essa vida prevista
Tantos pássaros, e eu aqui versejando.

24 fevereiro 2012

Poetizar




Um Manoel de Barros me honra o deleite
ao lado de minha perna esquerda
descansa atento meu cão.
de quando em vez passam carros
para desmistificar minha solidão.
Aqui tudo é avesso de vento, motores
e buzinas distantes;
casas madrugam à entrega inquieta
a cada novos abrigados
a rua me reconhece sem remorso
mas com a possível nostalgia
do que ali não habitamos, mas sabemos
sentimos imemorialmente o contrário.

A poesia me é palpável no espelhamento da leitura
porque sou humanamente limitada
corrompem minha leitura conversas
submersas dos mundos alheios
Sinto assim porque pego as minhas chaves
e sigo a saudade transcender o material.
enquanto concentram-se em olhos caninos
silêncios audíveis do bairro mal estrelado
bem recuado, triste;

Porque poetizar é expor silêncios
Ver ruir os tijolos empilhados da evolução.