01 setembro 2014
28 abril 2014
A profundidade da palavra
As
palavras, como os objetos, são encontrados
nos
lugares mais inapropriados.
Como a
profundidade da palavra,
se uma
andorinha voando no céu
não
compõe o poema?
Dissipa
na magnitude do voo.
Assim
como o beija-flor parado
em seu
delicado bater de asas
não
compõe o poema;
escorre
na fragilidade da beleza.
As
explosões do astro rei; o contínuo
acordo
entre as luas e as marés,
a
sofisticadíssima tecnologia das plantas;
nada
disso compõe o poema.
A poesia
é a voz que narra o instinto
e vai
compondo a fotografia.
Disseram-me
que as palavras não têm vida,
mas sei
que são recicláveis:
Nada é
estático, tudo se resignifica.
05 junho 2013
Shauara David
Retrato falado
O poema transcorre uma voz específica
o mundo não profere palavra alguma,
enquanto isso, apenas ouço quieta
o que me diz a vida.
18 maio 2013
Amor...
LI
Mil textos não verbalizam o
que não há denominação.
A mais profunda capacidade de
amar é silenciar
ver além da pele, do caso e da
alma
mais que isso, ser a alma.
Livre. Leve e intensa.
A pulsação do universo é
íntimo e coletivo
uma mãe maior em que
habita(mos) até na morte.
Aliás, a morte inexiste no
sentido de fim
o ciclo é constantemente simples
e generoso
a folha que seca não desfolha
a árvore
o pássaro que cai não desanuvia
o céu
a estrela morta não deixa de
brilhar
e nenhuma das coisas mortas
deixam de acontecer,
as partes menores não são
menos importantes
na verdade não existe o
importante, nem verdade
porque não há infortúnios, nem
mentiras.
Não existe falha, nem dor, e
mesmo se houvesse dor
seria tranquilo, porque seria
natural.
14 maio 2013
Um deserto em mim
L
Não
tenho nada para fazer a não ser
esperar
o dia amanhecer. A movimentação
externa
não ouço, não vejo
mas
sinto irremediavelmente acontecer.
Em
minha cama múltiplas partículas invisíveis
terra,
poeira e os fios dispersos de cabelo
vão amontanhando-se sem que se perceba
como
o ventilador estático mira um
ponto indiferente,
me faz lembrar o deserto.
Mantenho-me
comprimida na miragem de um Oasis
um
milhão de acontecimentos por fora
das
paredes da casa, dos limites das cidades e países
enfadam
mais que o limite do cansaço;
ainda existe orvalho no deserto?
A sede da curiosidade me transporta pelo
faro;
como é longa a seca sensação de terra!
eis que surge uma welwítschia pouco
discreta
antes mesmo que pudesse analisar o fato.
Trecho do livro Sangria Desatada.
01 maio 2013
Grãos de quereres
Me atiço mais ao café pela possibilidade
de enfiar minha alma no cheiro do pó
no depósito de plástico da tampa vermelha.
Senão o café não valia a pena.
Wagner, o caso
A Nietzsche
“ Somente a arte
pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável o que há de
terrível na vida”
O eterno retorno do mesmo é teu,
nasceste póstumo para fragilizar as certezas
e ainda indagamos pra que, Nietzsche?
teus olhos me assaltam quando distraída
vejo duas bolas imensas, submersas
na brancura infantil entre as pálpebras
como negras ilhas gêmeas
desarmadamente preparadas
e ainda equipada de um fatalismo paradoxal
Ah, Wagner! Como queria pronunciar
alto teu nome! quem incitou essa vontade
nos diria tão bem como tudo é nada
e o vice versa a música resplandece
nas veredas do amor;
Com nós não, foi a poesia que nos encarnou
Quem sabe, Wagner, apaixonamo-nos
por vício, egoísmo ou procura,
talvez até desejo e incerteza
percebes a malícia perfeitamente
cruel de sua boa escrita, Nietzsche?
Quiseste matar a tua dor, ao
contrário,
eternizaste-a de boca em boca,
permeando
quase todos graus de cultura e
até asneiras
teu nome estático, difícil,
malhado
Quem há de nos defender? Formamos um trio
desconhecido, distantes de datas, corpos
e línguas. Ninguém há de tomar nossas dores
mas embebedam-se delas, a procurar
preencher um vazio que só aumenta.
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