03 maio 2012

Raridade




Eu era feita de diamante
desses raros, que brilham com pés descalços
em poças de lama,
encabeçando intentos
mas sem exigir, tão diretamente proteção.
Era desses pouco esculpidos
caracterizadamente fora do padrão
Dias desses me orgulhava do fato;
ser precioso e impreciso
Caso perdido, meu Deus, na vida
Não tardou salvar-me os devaneios
Deus não se impacienta com minha indecisão
tomei uma definitiva (em sua brevidade)
acreditando ser capaz de comandar meus passos
mais independentes que eu:
O sol podia nascer no amanha eterno
mas eu, pedra rosa
permaneceria me transformando em noite
desobedecendo, reavaliando valores
querendo pulsar distante, ser estrelas
iluminar em retaguarda ,independendo o tempo

Ah... Se bem me lembro;
Já fui diamante. Coisa rara.

02 maio 2012

A puta amada

(poema escrito por um poeta que nem sabe que é poeta e nem sabe que existo)




A filosofia tentaria explicar

mas só a poesia seria capaz

de sintetizar.

Ela é burra, imbecil, ignorante

Uma verdadeira puta.

sou extremamente angustiado,

porque muito penso

(nisso)


não tem cura a filosofia

a poesia, a melancolia

não tem cura o amor

Ela é inferiormente trágica, sou politizado

chamar-me de doido seria origem

estou certo que minha loucura faz bem ao país

me olham atravessado

porque sou, de fato, meio torto

sou como uma puta, mas meu preço

foge ao convencional.


Desqualifico-me por assim gostar

A puta é triste, feia, esquisita

e eu envergado de amor por ela.

16 abril 2012

Café com poesia




Dois casais na minha frente.
Cada par numa mesa paralela, apenas dois,
ou seriam quatro?
Individualmente fazem os pedidos
Ele vai de espumone, ela milk shake
Do outro lado, cerveja para ele,
chocolate quente ela.
sussurram tão baixo que revelam seus segredos,
bem os conheço,não me cabe surtos;
um casal foi embora.
O outro me observa.
Finjo não perceber que os criei,
Porque os observo?
Enquanto espero ninguém em silêncio,
o teu olhar dual me fita,
(noutro lado da cidade)
em vultos.

05 abril 2012

Acaso o piano




Ele dançava mãos suaves
pelo piano
empurrava crédulo e inteiro os dedos
como se não houvesse plateia.
Era vazio de pensamento, experimentava a si.
Atingiu em cheio
meus sentidos destoados,
Perdi o chão;
de tão leve passei a sobrevoar feito pássaro proibido
pessoas jantando em companhia
pareciam imóveis, feitos de cera.
Mas eles moviam-se sincronicamente com a melodia.
Comungávamos da mesma sagacidade
Eu, minhas asas e a música.
apenas ele dançava, nem alegre nem triste
indecifravelmente conformado.
Logo pensei atravessar a nado os ritmos
da música.
O músico me embevecia
enquanto contemplava o acaso.

29 março 2012

A cada encontro far-te-ei poesia




Não vou sobrecarregá-lo meu bem, com
abordagens vãs, já conhecemos o desejo
atraído pelo outro, o estranho nos espreita
para dizer que o ideal não existe, então aceita
o acaso que torna sincero o imperfeito e
passa a ser infinito o momento.

A cada encontro dar-te-ei poesia,
sente a magia plantar também a arte?
Não te precipites, me é dispensável respostas;
tua boca pequena já sussurra silêncios
conversas ao mar os pensamentos infindos
e isso satisfaz perguntas e não promessas
desconhecemos o futuro, mas o seguimos
fielmente. Pisando coisas;
arrastando o chão,
tropeçando sentimentos.

Não quero sobrecarregá-lo, amor,
com minhas desventuras, é suave tua cor
e se tua lombar reclama onde minha
mão não alcança, que águas desnudas
hão de aliviar tuas súplicas?
Levita que a grama nos acomoda essas noites
A lua testemunha o esmorecer do encanto
mas teu semblante, a cada encontro
bem servirá por tu a alimentar a poesia.

21 março 2012

Sálvia Divinorum




O mundo feito em dois minutos.
O mundo em mim, fractal e movido de pintura.
Tudo é borracha densa derretendo balbucios;
Cadê ele? A língua enrola enquanto a boca baba
(vi o duende na floresta) mas cadê ele?
Não era floresta, a casa testemunhava a agonia
Não eram visíveis, os olhos incrédulos creem!
Foi puxada abruptamente a alma, não havia corpo
além do nada, a realidade se desintegra e
transforma-se em nós, agora somos quadros,
uma surrealidade sem importância, pouco importa.
Ninguém nos pintou, é apenas mentira;

O amigo invisível acha engraçada minha cara, minha
calça verde. Todos riem, são desconexas as sensações
num segundo foram esfumaçados o todo individualizado
para comungar ainda mais irreal o que chamamos
morte; ou será nascimento?(se) tanto faz
o corpo desmembra
em ondas de borracha, quadro.
Porque tudo é mentira;
Apenas não a ideia xamânica turva e breve.

Tive medo. Fiquei curiosa:
O duende pegou em minha mão, e a mão não era minha
não havia dedos, porque não havia duende;
eram múltiplas as realidades
o entendimento foi desorientado em túneis
Minha calça não tem cura, é engraçada;
Somos hilários enquadrados de Dali!
Não é liquido nem concreto esse chão colorido,
esses móveis, tudo feito de mentira.
O tempo inexiste, a arte inexiste, a casa inexiste
Só existe o mundo emborrachado,
feito de loucura.

13 março 2012

O amadurecimento do tédio



No passado se quebraram taças matrimoniais
em desesperos dos arrependidos
geravam novos perdidos
desde então, sucessivamente.

Mas isso era no passado. Panelas voavam
de agressões descontroladas, fazendo o medo
(palavra por si só pronunciada
produz o aumento da sensação)
substituir as juras destroçadas, tal qual os cacos.

Porém já foi. O infantil cresceu envergonhado
procurando ao máximo, não incomodar.
O adulto se consolidou firme e
no entanto, fraquejava pelas paralelas
para manter o caminho do meio
sem más precedentes emocionais.

Desde então tudo estagnou de repente
trabalho, saídas forçadas, conversas
ligeiramente cansadas. Tédio absoluto.
O medo do passado, apenas mais amadurecido,
claro, com o mesmo cheiro frio de vento
(mais amargo mais gélido)
Uma tristeza infinita mergulhada no
trago de uísque
aquela brandura inerte no tempo
Ingênua, nem imaginava;
tudo cabia no futuro.