Algum.
Sem previsibilidade.
Sem nome.
Sem a data
Pra não ter idade.
Simplesmente nada.
Apenas palavras com fome
Nadando por fontes
Que lhe indiquem o caminho.
14 novembro 2009
Poemeto injuntivo
Faça como quiser
Qual será o resultado?
De um jeito qualquer
Faça!
E a coisa sairá (...)
Uma coisa qualquer.
Qual será o resultado?
De um jeito qualquer
Faça!
E a coisa sairá (...)
Uma coisa qualquer.
03 outubro 2009
Menino da rua
Há muito já não convinha culpar o mundo por sua inutilidade na sociedade. Conformado em sua própria escolha se limitava ao comando do destino: O azar dos dias ruins que ia dormir sem ter pego em dinheiro algum, com a barriga e o pensamento vazios. Ou a sorte dos dias bons: quando alguém concedia uns trocados pra lhe suprir a vontade de fumar, e se a fome incomodasse mais que o vício comprava um pão na esquina e sentia-se um pouco menos humano. O pão lhe causava a impressão de esmola, fazia-o lembrar que não tinha uma mesa para sentar e menos alguém para compartilhar a janta, saía porém com a sensação de dever comprido, ao menos por hora não se preocuparia em não morrer de fome, pechinchando apenas a nicotina.Caso alguém perguntasse o seu nome, embora hesitasse em dizer, não havia dúvida : “Pode me chamar de menino”.Teve que inventar o próprio nome e sem muito esforço escolheu aquele que ecoava em sua mente como única lembrança importante de sua mãe. Sempre suja, fumando cigarros vagabundos, passava pelas calçadas a esmo e chamava-o de menino. Mas ele saía indiferente a qualquer passado, sabia que não havia nenhuma estrela no céu que representasse os seus, aliás nem acreditava que tivesse um dia família, por isso sentia que era diferente e podia jurar que nasceu ao acaso, sem nenhum planejamento e nenhum riso que consolidasse uma nova vida. Assim como foi a morte de sua mãe, sem lágrima que representasse o fim ou a saudade. A solidão já estava escrita em seus versos, a tentativa de aproximação com alguém lhe causava tédio e náusea.Gostava de ser só, preferia assim. Tinha alguns amigos que vagavam pelos sinais da cidade. Na verdade trocava com estes momentos rápidos de prosa e aceitava também uma “roda de boca” era como chamavam a reunião para ingerir, por uma necessidade ideológica, algum tipo de “fuga da realidade”. Fumavam, bebiam, cheiravam por horas e ele apenas seguia o seu caminho sem rumo e sem pressa de chegar a canto algum. Roginho era o que mais confiava, era o único que se dava ao luxo de prolongar a presença. Certo dia, ambos tramaram um assalto, combinaram e se divertiram com as diversas possibilidades do erro, e até pensavam em desistir quando Menino ,amedrontado, falava em polícia, na perda da liberdade. Rogi era mais ousado e pretendia sair da miséria, tinha sonhos e confiava em si “Não merecemos tal situação! Isso não é justo! Onde está Deus agora? Eu vou roubar e não tenho culpa por isso!”. Era determinado e se especializou na vida fácil. Menino participou de algumas delas, mas não tinha a vocação. Numa tarde de quarta-feira sentou-se na parada de transporte coletivo e apanhou um jornal que voava pelo chão, no momento que abriu pôde se divertir sem constrangimento, não entendia o que estava escrito ali, mas havia algumas fotos e a sensação de ser um homem que lia um jornal em plena luz do dia era transformada em risos incontroláveis e inocentes. Menino ficou ali por um longo tempo, mesmo não percebendo não estava só: As pessoas acompanhavam com curiosidade àquela cena que não tinha nada demais.
Tardes Bucólicas

Nem somente quando estou sob efeito de alguma erva (mas também em momentos sóbrios), imagino certos detalhes da vida que de tão loucos, são bastante precisos. Impecáveis realizações da mente transformada em pura descrição da realidade.Toda percepção latente torna-se óbvia e perde a magia quando sai da idéia do pensamento para o fato em si.Naquelas tardes em que há forte vento e uma melancolia advinda das ruas vazias abordam a questão da própria existência, que logo associo ao pôr-do-sol de domingo. Quando o sol se despede da sua sensação bucólica, é chegada a hora de mergulhar no escuro iluminado da zona sul.Metrópole calma e solitária, o romantismo dos livros antigos se faz sentir nesse momento, e quase naturalmente o leva ao mundo “preto e branco” interiorano duma história que sequer viveu, a não ser pela leitura. São os últimos momentos do descanso já cansado do ócio, de pensar no dia posterior, onde a rotina dar as cartas e dita o dia bom e o dia mal.Certa vez estava numa dessas tardes bucólicas de domingo, apenas observando enquanto passava por uma reflexão de como não morrer de tédio. Era um condomínio fechado e três crianças brincavam despretensiosamente. Estavam calmas. A única menina parecia liderar o trio, cada um segurava uma vara de galho fino, enfiando-o delicadamente num buraco de formigueiro, esperavam a formiga apoiar-se no pau e a despejava numa garrafa plástica com areia dentro, construindo assim, um formigueiro próprio. A concentração daquelas crianças em realizar um objetivo tão simples despertou o questionamento acerca das atitudes, tantos conceitos complexos de grandes filósofos e tão inúteis quanto transferi um formigueiro de seu habitat natural para um artificial.Os homens pensam de forma artificial e nem mesmo as crianças escapam disso.Querem proibir, limitar e apontar espaços como preferirem, sem preocupar-se com a liberdade ou mesmo vontade do outro.Assim fazem com os pássaros na gaiola, e os peixes no aquário!Acendo um cigarro, velhas tardes de domingo nunca morrem, embora estejam mortas em vida, são sempre iguais: Pensamentos vagos, concentração dispersa, corpo cansado, ruas vazias, ventos barulhentos ao som das árvores mais experientes fazendo sinfonia junto às corujas e grilos.Lembro-me ainda de um grande amor. Nós debatíamos a respeito da atração dos opostos, será que são opostos? Se se atraem supõe que se completam, então não são opostos e sim complemento do outro.Assim, um músico de composições sempre recordativas, tem como consolo para seguir em frente à auto-afirmação do que foi um dia; e em outro de composições românticas é paradoxalmente sensíveis, tendo em vista um coração versátil que fácil se encanta e desencanta friamente.Mas o que isso tem haver com os opostos? São complementos que transmutam entre si, envolvem-se e as conseqüências são a troca de detalhes que restam do tempo: Só as lembranças, e destas apenas restam os ventos de uma tarde bucólica.
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