01 março 2010

Estação dos gatos



Está tudo turvo, meio alaranjado
Meio fim de tarde de Outono
Descansado como o gato que se
escora no muro.
Estica de preguiça, quase um anjo!
Santo plano de Deus, o frio...
O banho de rio, o rebanho, o claro e
o escuro.

Meus óculos andam arranhados
E nem posso acertar o caminho
De volta. O gato mal me olha
E lentamente desce as pálpebras
É fim de tarde de Outono
Penso que devia haver outra estação
Onde multiplicasse desses bichos
Insanos e cheios de enigmas.

Não há jeito... Quase não suportam gatos
Mas sou exceção em cada uma
das sete vidas.

Erro nas linhas





Dos livros que li, de tudo que participei
Esta foi a história mais triste que conheci:
A mãe me olhando
Meio a poeira do destino
Tantas mágoas e desentendimentos!
Fui morrendo aos poucos, fazendo poemas
Pra abstrair os fatos e meramente fugir!

Dos hospitais que visitei; as chagas que contraí
Minha bronquite vale o respeito
E o perdão dos goles que traguei
Mas não perdoei a todos
Por terem me feito nascer!
Embora os risos sedentos
O monte de erros e momentos
bons...
Na minha história morri
Das mais tristes delas
Que conheci.

20 fevereiro 2010

Ciclo Vicioso





Nossa história termina onde começou
Num ciclo labiríntico que se consome
Atrozmente; soltando faíscas ligeiras
Do bater de pedrinhas no caminho:
Hora chutadas pela força do desejo
Outra; enclausurada na sandália
como adorno permanente.

O drama muda de cor
Enrosca em sete linhas
Brancos amarelados
E traz um grito, um agrado
Quando menos se espera
Mais se abafa o próximo passo.

O problema continua...
Atadura, limão e pomada
Se valha a cura se faz necessária
De cor em cor; mistura, se esconde!
De par em par; alinha...
Caminha numa direção difícil
Pé ante pé
O mesmo sempre aspecto gasto.

É passado mas a saudade ficou
Pra que nossa história termine
onde começou.

Deixa que a inspiração te escolhe o tempo

E faz da tarde a graça
Da noite; a sombra que acompanha
Do claro o sentido
No escuro a certeza
Que não se vê só por olhos...

Deixa que ela vem
Quando quer, não avisa!
Nem te arrepia os poros.

Não há sorte que refaça
Esta vida...
Não há tento que desfaça
A intenção... quando cicatrizada pelo tempo
Faz da inspiração sua ferida!

11 fevereiro 2010

Tem coisas que não mudam






A loucura é a sensatez concreta
Das noites enxutas de sexta-feira
Onde a ousadia se faz completa
Pelos olhares neutros, a beleza se alterna.

Cortando a Literatura





Traga aqui a faca mais potente
Para eu cortar da literatura
Todas as póstumas escrituras
A prosa boa e o verso latente.

Apurar depressa Bandeira
Um cidadão de Itabira e os capitães de areia
Devoro Clarice, mastigo Meireles
Nesse tempo santo não me escapa Florbela

Vinícius, qual a chave do segredo?
Cruz e Souza simbolista
Quintana e os modernistas
Ou a perfeição de Álvares de Azevedo?

Traga aqui a faca mais potente
Para eu comer da literatura
Raquel de Queiroz e Graciliano Ramos
E o que trará de presente aos todos
de anos.