03 novembro 2011

Anonimato




Na esquina do mundo bifurcam becos
Em um há tiros, vácuos e anônimos
No outro há bichos, braços, casais
e anônimos. Mas não fica só aí;
barrigas soltas carregam, além dos quadris, sacolas:
ovos, pães, bolachas, algumas roupas
e uma incrível transparência.
Existem também as traições e Silva Neto;

O funcionário da farmácia, dos olhos inquietos
Apenas uma noticia: Foi atropelado.
mal fechou as mãos e substituíram o coitado
A quem mais perto chegou da dor, os vizinhos
durou os poucos instantes em que
reconheciam seus destinos,
o silêncio, a solidão e o aterro invisível;

Logo em seguida uma procissão de anônimos
Sofridos, porém enaltecidos pela fé
seguem cômodos um caminho pré-determinado
pela ordem do bem infalível:
O cansaço anunciado nas pálpebras
Carregando a despedida dos anos...
tão anônimos! Sem aparatos comoventes
sem semente para frutificar esperança em seus quintais
bem cuidados, armazenando o sabor da terra
nas mesas, fruteiras e bacias.

Mas eles também vão até o centro;
As cidades caminham cautelosamente para acomodar os seus
Os cheiros se misturam e formam-se num só;
Cheiro dos anônimos, das ruas, ruas do anonimato
O chão anda o mesmo, as paredes apenas sujam
em algumas casas o dia amanhece outras, no entanto
o sol esquece de anunciar a liberdade
sentenciada aos carmas insanos;
doenças, brigas comuns, os mesmos dilemas;

E as casas vão dominando tudo
no pouco desse mundo sem dono...
mas os becos não esquecem de existir
energizados pelas quedas alheias;
conversas nas calçadas atravessam muros
de satisfações, acrescentando-lhe um pouco de nada
já que a Terra anda perdida de sua rotina
e nenhum buraco é coberto na estrada.

Os meninos correm pela rua, as mães instalam
um grito armado de terror e cuidado
os mais delicados esperam despreocupados
que tarde, e fique apenas as sombras
dos gatos se entreolhando abusados, desatentos!
Os últimos bêbados, os mais fiéis ao desleixo
conversam sem que pareçam ser vistos
qual o problema de andar tropeçando,
se amanhã não há mais nada para fazer?
O jeito é ficar de qualquer jeito
ratos, formigas, escorpiões e baratas
também obedecem às suas funções, velhos anônimos
de bueiros, não se extinguem esses animais!

Na esquina do mundo bifurcam mil universos
alinhados na diferença de cada cabeça
um tufão, uma tempestade, um tsunami
as placas tectônicas se movimentam sem nome
empurram-se cansadas de carregar o mar...
Ah, Natureza anônima! Mãe Terra, Deus mar...
A diversidade mata a individualidade das espécies;
a biografia do sapo? Do lagarto? Do jacaré?
Instintivamente permanecem anônimos,
Sem genealogia, sem signo, ou data de comemorações
Um pouco mais que nada;

A poesia não, se isenta das tragédias, das alegrias
vive presa no quartinho sem número, na penumbra
sem expectativa de encontros, debilmente
desarmada, vestindo um par de asas quebradas
e o quebranto dos fins de tardes, madrugadas.
Pois a solidão gera poesia
escondida, concentrada, anônima.
Já as pessoas são todas estranhas,
Reais, insistentes de si mesmas
sem mitificação para espelhar vontades, basta!
antes nunca que lhe tarde uma
atitude mesquinha e uma identidade desalmada.

Na esquina do mundo bifurcam becos
mas não fica só ai;
outros surgirão, bastam alguéns em algures
está pronta uma cidadezinha!
fofocas e intrigas que não cabem nas avenidas
nem nas cidades, nas poltronas, nos países
aonde vão parar os tantos? Não cabem nos continentes!
não cabem nas camas, nos carros, nas filas
não cabem na poesia.
Em locomotivas não cabem borboletas,
só a revolução e seus bens preteridos
os telégrafos desistiram de comunicar-se
já que o anonimato dominou o planeta.

21 outubro 2011

Poema infantil-


A Cinthia Danielle


Ah! Se essa menina deixasse sementinhas;
Os caminhos seriam flores de primavera
Os sorrisos doces, infantis, semblantes brandos
Não se regaria ali, a violência!

É tão frágil essa menina, quase
não suporta as desumanidades deste mundo!
Quase não anda, quase não chora
ama e obedece à alma, ao cansaço e ao sono;

Tão linda, minha menina...
Irradia à minoria através do abraço sincero
dom de anjo no brilho dos olhos...

Ah! Se essa menina deixasse sementinhas;
a vida não seria mais que sonhos
Transbordaria Luz na união dos povos!

10 outubro 2011

Fragmentos




Estou espalhada nos livros,
bibliotecas e casas,
Cada leitura tem-se um pouco de átomo meu
a anti-matéria vinda da falta de força
criada nas letras vagarosas e
ranzinzas.
Escolhidos especialmente,
com toda
delicadeza
que exige
a poesia.

Estou fragmentada entre vocês
Resignada às interpretações
Roubando um pouco de suas vidas

Por que quem Le, morre um pouco
Bravo instante de febre deve renascer
e devolver-me o reconhecimento
vazio que me sustenta.

Irredutível





Não adianta inovar com viagens


mudança de rotina, já que há um cacto


alojado na retina.

29 setembro 2011

Gaiolas




Estou presa numa gaiola de tristezas
O mover diário não me desperta do sono
ao contrário, rompe os cacos coniventes
com os cortes, mas
não devo permanecer assim...
apenas uma minoria deixa que a raiz se expanda...
a Terra tem dessas alucinações;
Somos tão poucos nesse universo que flutua
sem chão!
somos tão... Desarma-me buscar explicações!

Mas nem conto. Tive um sonho verdadeiro
daqueles de causar sensações,
é meu amante, o sonho. O outro livro
censurado, porém da mesma biografia.
Vês? Estou bem. A chuva não veio tardia
apenas aproveitei para desbravar a tarde
Não vês? Ando até corada... Embora me
falte coragem de seguir o clarão
de riqueza imensurável descendo
E eu prostrada, com o milagre acontecendo
passiva, apesar da beleza, pois não consigo
minuciosamente,
dissecar
o sol.

23 setembro 2011

Poema leve-




Pediram-me para fazer um poema leve
Passei tempos a desfazer os tumultos
de pensamentos. Congestionados
pela insensatez das impurezas
alheias, instaladas em anseios
por sorte, nem tão obedientes
assim.

Pois bem;
Pediram leveza
isenta de minhas próprias ternuras
Observei a chuva
Lisa.fina. preguiça da manhã
Enquanto sutilmente o céu desarma
Me ponho prostrada, com a xícara quente;

Agora busco vento. Sombra, sem que
o peso do mundo permaneça enlatado
num aterro acomodado e distante, basta!
Me basta a primavera
Uma folha nessa mesa;

E o poema sai voando...

30 agosto 2011

Intemperança modernista-



À Manuel Bandeira


Manuel Bandeira, quanta tristeza nos espreita
Teu olhar tênue e pernambucano se estende
no nariz longo e completa-se dentuço tua boca
carnuda, o teu semblante puro!

É do beco provinciano, essa coisa que tens
de não se fazer mal a ninguém...

O café, o cigarro e as mulheres que amaste
Não desfeitos, mas imersos no passado
de alusões, nostalgias das perdas precoces
Saturado de ausências. Ficasse só,
mais cheio de tudo tal qual varria o vento;
as canções de tua vida...

Tal qual caminhava nas ruas
A libertinagem trazia alumbramentos
Junto ao mau destino, nem foi tão ruim assim!
Cada coisa em seu lugar, te lembras?
Quando tudo parecia impregnado de eternidade

As tosses cessaram.
Trouxeram as reminiscências da infância
Como se fosse outra vida.